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Revista UM

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Proj-13-Reportagens

Publicação: Revista UM
Data: Abril de 2008

Matéria que destrincha a crise financeira de 2008.

Leia a matéria na íntegra:


 

TUDO SOBRE A CRISE GLOBAL E SEUS EFEITOS

A bomba mundial da economia ainda não parou de explodir. Parece sem fim. Afinal, haverá recessão? Vamos ter desemprego em massa? Vão reter seu dinheiro no banco? O mundo acaba em que data? Montamos um guia para você entender, se prevenir e se orientar no meio de números, projeções e oscilações.

| TEXTO CAMILA DA ROCHA MENDES | ILUSTRAÇÃO ELTON FERNANDES |

 

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CONEXÃO
A palavra do leitor

“Se um setor econômico se mostra muito lucrativo, uma bolha pode estar por vir. Elas se formam com um crescimento acentuado e irrefreável nos preços de bens. Isso atrai especuladores, que tentam aumentar os ganhos. Uma reversão pode acontecer e desencadear uma crise financeira. Foi o que aconteceu. Aprendi na faculdade que, quando há uma bolha enorme é preciso ter cautela nos investimentos. Ano passado, com a crise hipotecária dos Estados Unidos aumentando – que era uma bolha –, mudei de investimento. Tinha papéis na bolsa e não eram títulos públicos, mais seguros. Saí e fui pro CDB. Teria perdido dinheiro se não fosse isso.”
Miguel Luís Padolli, 37, economista e engenheiro

 

NOS ÚLTIMOS MESES, a crise esteve tão sufocante, com incontáveis oscilações no mercado acionário, que o colunista Tutty Vasques, do Estado de S. Paulo, cravou, com seu tradicional humor corrosivo: “Cresce na ONU o lobby pela criação do Dia Mundial Sem Pregão. O ser humano está precisando de folga”. Se você acompanha os jornais, sabe: tem dias em que as bolsas pelo mundo sobem incontrolavelmente. Em outros, cai a patamares próximos do fundo do poço. Economistas e comentaristas especializados dão prognósticos com a mesma precisão de meteorologistas e astrólogos. Pouco depois das 9h da manhã surgem no noticiário análises catastróficas sobre bolsas de valores e, à tarde, o cenário muda para um esperançoso “agora tudo vai melhorar”. O cotidiano financeiro anda desatinado. Está difícil entender o que acontece no universo da economia. Do político de esquerda que vê na esquizofrenia do mercado uma ruína definitiva em Wall Street ao analista de direita que enxerga a quebradeira de bancos como sinal de mudanças naturais de economia neoliberal, as conclusões a respeito de tudo isso confundem. Ou até provocam vertigens. Sobram dúvidas a respeito do que realmente importa neste turbilhão: seu bolso, sua vida, até seu futuro. Vamos entrar em recessão no Brasil? Teremos desemprego? Não poderemos mais investir na bolsa tão cedo? E os seus investimentos? Há um ano, na edição de novembro de 2007, UM publicou uma reportagem falando sobre a crise americana. O título: O pior está por vir – e virá. Nada disso era profético. Apenas uma possibilidade concreta, apontada por especialistas ouvidos. Hoje, ela já não compete somente aos norte-americanos. Com a falência de grandes instituições financeiras, o espírito da recessão rondando dos Estados Unidos aos países asiáticos, passando pela Europa e América Latina, apareceu com mais força. Os problemas que surgiram no mercado imobiliário americano desencadearam uma escassez de crédito de tamanha amplitude que países tão longínquos como a Islândia hoje enfrentam problemas financeiros. As turbulências foram suficientes para promover encontros e reuniões entre líderes de todo o mundo em torno do tema – o ministro da Fazenda, Guido Mantega, chegou a sentar lado a lado com o presidente norte-americano George W. Bush para debater o assunto. Num movimento para tentar conter a sangria financeira, medidas de socorro que somam trilhões de dólares foram anunciadas por diversos governos, inclusive pelo brasileiro. Estados Unidos e Europa estão trabalhando muito próximos na elaboração de pacotes de resgate, o que parece ter acalmado, por ora, os ânimos de investidores. Mas, como as próprias autoridades já admitiram, o remédio vai demorar para fazer efeito.

 

O rombo de US$ 5 trilhões nos Estados Unidos

Em meio ao caos, as Bolsas de Valores refletiram medo e incertezas, amargando perdas históricas ao redor do globo. No Brasil, o Ibovespa (principal índice do mercado de ações brasileiro) desceu 40,3% desde o começo do ano. Até meados de outubro, as principais empresas brasileiras de capital aberto acumularam no ano desvalorização de cerca de US$ 637 bilhões, enquanto nos Estados Unidos o rombo no mercado de ações chegou a US$ 5 trilhões. Com o agravamento da crise, a Bolsa em São Paulo foi obrigada a acionar o “circuit breaker” – sistema que paralisa as negociações automaticamente quando o recuo ultrapassa 10% – por quatro vezes num período de 20 dias. Ao mesmo tempo, o dólar ultrapassava R$ 2, acumulando alta de 30% diante do real, em apenas dois meses. Até o final de outubro, três grandes empresas brasileiras do setor de papel e celulose haviam divulgado perdas por causa da taxa cambial. O governo calcula que o baque atinja mais de 200 empresas no país. Aliás, os efeitos do problema sobre a economia real (empresas, empregos, consumidores e comércio) tomaram o foco das atenções. Dos seis maiores bancos de investimentos norte-americanos, apenas dois não entraram em colapso: o Morgan Stanley e o Goldman Sachs. Nos Estados Unidos, a General Motors anunciou 1,6 mil demissões em três fábricas, dando o primeiro alerta fora do ambiente especulativo. A produção industrial americana sofreu, em setembro, a maior queda desde 1974. Embora já exista um movimento das autoridades para conter uma possível recessão, que só encontra precedentes na crise de 1929, ainda pairam no ar outras dúvidas contundentes. Consultamos especialistas, analistas de mercado, economistas e professores para você não ficar perdido no meio deste crash histórico de 2008.

 

COMO AFINAL COMEÇOU ESTA CRISE?

Em ano de eleições presidenciais nos Estados Unidos, a culpa pelo caos na economia americana, epicentro da crise global, recai sobre o presidente republicano George W. Bush, que conclui seu segundo mandato. Mas o estímulo que deu início a este processo veio do governo de Bill Clinton, no final da década de 1990. Foi o próprio democrata quem autorizou que as hipotecas (empréstimo que dá imóvel como garantia) fossem concedidas em uma nova modalidade, o subprime, que significa “de segunda”, medida para facilitar a aquisição da casa própria pelas camadas de baixa renda. Assim, os financiamentos residenciais foram dados sem garantias de crédito. Diante de uma demanda aquecida pela facilidade de acesso ao dinheiro, o mercado imobiliário americano viveu anos de extrema valorização. Os bancos resolveram pegar carona nessa prosperidade e, para captar dinheiro, criaram títulos lastreados nas tais hipotecas subprime. Os papéis foram vendidos para investidores, que por sua vez criaram derivativos (ativos cujo valor e características de negociação provêm de outros ativos) e os passaram para frente. Isso gerou uma corrente de papéis apoiados no mercado imobiliário, que se espalhou por todo o sistema financeiro – até de outros países. Estava formada uma bolha dupla: dos preços dos imóveis e do crédito fácil. Os problemas vieram à tona quando os mutuários (pessoas que tomaram empréstimos) deixaram de pagar suas dívidas. Com os níveis de inadimplência altos, os bancos se tornaram mais rígidos nas concessões de hipotecas, e os imóveis que estavam no mercado não encontravam compradores. Como resultado, muitas hipotecas passaram a valer mais do que os imóveis dados como garantia.

 

POR QUE E COMO OS BANCOS QUEBRARAM?

Quando o mutuário começou a dar calote, a dívida se alastrou no sistema financeiro. Muitas instituições financeiras tiveram que arcar com esse prejuízo, uma vez que tinham vendido a terceiros títulos que eram lastreados nos empréstimos subprime. Assim, faltaram recursos para que os bancos fizessem novos empréstimos (para pessoas físicas, empresas ou outros bancos). A falta de recursos disponíveis no sistema bancário gerou uma crise de liquidez. Ela ocorre quando o fluxo de circulação dos recursos na economia, promovido principalmente pelos bancos, é interrompido ou severamente reduzido. Em um ambiente conturbado como o atual, muitos se mostram receosos em repassar os recursos, temendo que o tomador não tenha condições de pagar a dívida. Em setembro de 2008, o banco de investimentos americano Lehman Brothers, último grande a quebrar, não teve mais condições de cumprir com suas obrigações. O resultado de todo esse pandemônio financeiro foi uma desconfiança generalizada, que levou investidores a fugirem das Bolsas e agora ameaça flagelar também a economia real. De maneira tão demolidora como foi no mercado financeiro.

 

A CRISE IMOBILIÁRIA ERA PREVISÍVEL?

Sim. Tanto que o ganhador do prêmio Nobel de Ciências Econômicas deste ano, Paul Krugman, já havia levantado a hipótese de que a especulação no mercado financeiro poderia gerar um desastre. Outro economista que previu a tragédia, o turco Nouriel Roubini, professor da Universidade de Nova Iorque, alerta hoje para o risco de o quadro piorar. Roubini estima que o total das perdas ocasionadas pelo subprime deva chegar a US$ 3 trilhões no mundo, em contraste com a previsão do FMI (Fundo Monetário Internacional) de US$ 1,4 trilhão. Em 2006 Roubini projetava que a mistura de crédito fácil com os preços excessivos no mercado imobiliário americano e no de commodities (matérias-primas como produtos agrícolas e metais) internacionais, e a falta de regulamentação por parte dos órgãos oficiais dos Estados Unidos levaria a uma combinação explosiva, a pior crise dos últimos 40 anos.

 

COMO OS GOVERNOS VÃO REORGANIZAR SUAS ECONOMIAS?

Agora, a principal preocupação é devolver liquidez ao sistema. Para isso, os governos assumiram o papel de provedores. Estão tentando garantir recursos suficientes aos bancos para que eles promovam a circulação do dinheiro. Entre as medidas adotadas está a redução da taxa básica de juros, ação coordenada entre diversos países, como os Estados Unidos, Canadá e os membros da União Européia. A taxa de juros de um país é a variação que o governo paga pelos empréstimos que toma com os bancos e é usada como parâmetro por todo o sistema financeiro. Se reduzida, o consumo e a produção industrial são incentivados – financiamentos se tornam mais acessíveis e baratos. Só que a ruína financeira mundial de hoje exige medidas além do sistema regulatório tradicional. No centro dos problemas, os Estados Unidos aprovaram um plano que soma US$ 850 bilhões, dos quais US$ 700 bilhões seriam utilizados para adquirir os ativos podres que ajudaram a disseminar a derrocada no sistema bancário. Contudo, o projeto inicial foi modificado após o governo britânico ter anunciado uma medida que parecia mais adequada. A forma de ajuda proposta pelo Reino Unido, adotada por outros países – Estados Unidos inclusive –, levou o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, a ganhar destaque. O plano prevê a compra de ações dos bancos do país, num total de US$ 31 bilhões. Economistas elogiaram a tática: não é apenas um empréstimo, e sim uma troca. As ações adquiridas tornam o Estado sócio dos bancos.

 

OS ESTADOS UNIDOS VÃO SE RECUPERAR?

A principal função do pacote americano é restabelecer a confiança no sistema bancário por meio da provisão de recursos, e assim fazer com que as instituições voltem a emprestar dinheiro umas às outras e também a empresas e pessoas. Assim, aos poucos, o dinheiro volta a circular na economia. Mas esse processo é lento e vai demorar a surtir efeito. Além disso, o governo americano ainda não determinou quando irá colocá-lo em prática. Apesar de não estar tecnicamente em recessão (o que ocorre quando o PIB cai por dois trimestres seguidos), muitos economistas apostam que o país logo apresentará esse quadro, mesmo com o plano. Os especialistas ouvidos pela UM apostam que a expansão do PIB norte-americano deve ser de mísero 1% em 2008, reduzindo-se drasticamente a 0,2% em 2009. “Os Estados Unidos devem começar a se recuperar em 2011”, projeta Fabio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores. Mas há quem desconfie da eficiência do projeto. O plano carece de medidas sociais, o que pode limitá-lo. “O governo precisa socorrer a população que não tem meios de pagar as hipotecas”, explica o professor Evaldo Alves, de economia internacional da FGV (Fundação Getúlio Vargas). O desemprego pode aumentar e o consumo – cerca de 70% do PIB americano – recuar. “Isenção de alguns impostos poderiam conter maiores danos”, sugere Alves. O presidente do Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, declarou que mais um pacote, com incentivos fiscais, pode ser elaborado pelo governo. Outro problema: as medidas não contemplam uma regulamentação mais rígida do mercado financeiro.

 

QUAL SERÁ O EFEITO DOS PACOTES APROVADOS POR PAÍSES EUROPEUS?

A raiz dos problemas enfrentados na Europa é similar à da crise desencadeada pelo mercado imobiliário nos Estados Unidos. As principais empresas a apresentar falência tinham negócios relacionados a hipotecas. No Reino Unido, o Northern Rock, uma das maiores instituições desse ramo do país, foi nacionalizado neste ano. Na Irlanda, que está em recessão, analistas vinham alertando para o estouro da bolha imobiliária, acarretada pela desaceleração no setor de construção civil. As medidas anunciadas na Europa são abrangentes e protegem mais o contribuinte. O governo britânico já anunciou um pacote de investimentos e cortes de impostos para estimular o mercado imobiliário. A Alemanha anunciou que o governo irá garantir todos os depósitos bancários. Ou seja, se um banco quebrar, o correntista terá seu dinheiro de volta garantido pelo Estado. O viés mais social pode ser um fator de vantagem na recuperação das economias européias, na medida em que considera os abalos sofridos pela economia real. Na mesma linha, os demais líderes da região (Alemanha, França, Itália e Reino Unido) concordaram em processar os responsáveis de instituições que precisem de ajuda pública.

 

COMO O GOVERNO BRASILEIRO ESTÁ LIDANDO COM ESSA CRISE?

Já admitindo que podemos sofrer abalos, o governo anunciou uma série de medidas nas últimas semanas para evitar uma piora no sistema financeiro. Uma das primeiras atitudes foi a redução do depósito compulsório – parcela dos depósitos de clientes que os bancos são obrigados a repassar para o Banco Central –, estimado em R$ 100 bilhões. Quando diminui o compulsório, o BC deixa mais recursos à disposição no mercado, o que pode ajudar a reduzir os juros bancários ou, em momentos de mais escassez de dinheiro, como agora, impedir que sequem as fontes de crédito para o consumidor e para empresas. Porém, o BC fez algumas exigências em troca da facilidade, para ajudar outros setores da economia. Os bancos deverão repassar parte desse dinheiro liberado para o agronegócio e a construção civil, fortemente impactados pela alta do dólar e pela escassez de crédito. A segunda frente de combate é a oferta de dólares no mercado interno. Além de vender moeda estrangeira aos bancos em leilões diários – para conter o avanço dela –, o BC também realizou operações para o setor exportador. Desde o agravamento da crise até o fim de outubro, US$ 22,9 bilhões foram liberados. O governo brasileiro também aderiu à saída de Gordon Brown e autorizou os bancos estatais a comprar participações em instituições financeiras privadas e empresas do setor imobiliário.

 

COMO A CRISE PODE NOS AFETAR?

Nossa economia vai sofrer uma desaceleração. O PIB, que neste ano vai subir cerca de 5%, crescerá entre 3% e 2% em 2009. “Não haverá recessão”, projeta Francisco Pessoa, economista da LCA. A pancada mais forte será sentida no setor produtivo brasileiro, nas principais locomotivas da economia interna: exportações e crédito interno. Haverá diminuição do comércio exterior, na medida em que o consumo se retrai. Essa perspectiva, além de afetar o volume das exportações brasileiras, também atinge a receita das empresas do setor, dentre as quais se encontram gigantes nacionais como Petrobras e Vale. “Com o consumo decaindo, os preços de commodities, principal componente da pauta de exportações, caem”, explica Fabio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores. Assim, tanto as receitas dessas empresas devem ser menores nos próximos trimestres, quanto o saldo da nossa balança comercial. A crise também abalou a oferta de crédito. Isso significa que os bancos estão mais rigorosos na concessão de empréstimos, cobrando juros mais altos e diminuindo os prazos de financiamento. No cenário corporativo, empresas estão tirando o pé do acelerador e adiando planos de investimentos.

 

QUE RELAÇÃO ESSE QUADRO PODE TER, AFINAL, COM O BOLSO DO BRASILEIRO?

O consumidor terá de preparar o bolso, além de passar a pagar mais por produtos cotados em dólar. Ou seja, a crise pode, sim, afetar a todos, ainda que em médio prazo. Os setores mais atingidos devem ser o bancário e o exportador de commodities, sem contar aqueles que dependem da importação de matérias-primas, como os de eletroeletrônicos, produtos hospitalares, medicamentos, combustíveis. Caso o custo de produção continue alto, por causa da taxa cambial e do encarecimento de empréstimos, existe ainda a possibilidade de que a indústria de alimentos promova um reajuste de preços.

 

PODERÃO OCORRER DEMISSÕES?

“O ritmo de contratações irá diminuir, o que pode ocasionar um aumento da taxa de desemprego”, afirma o economista Francisco Pessoa, de São Paulo. Isso não quer dizer, necessariamente, que uma onda de dispensas está chegando. O mais provável é haver um descompasso entre o número de vagas criadas e o contingente de pessoas que entram no mercado de trabalho todos os anos.

 

QUAIS SÃO AS PERSPECTIVAS PARA O MERCADO DE AÇÕES?

Nos próximos meses ainda vamos ver muita volatilidade. Se o cenário continuar se deteriorando, o mundo irá consumir menos commodities, o que afetaria diretamente as principais empresas da Bovespa. Vale, Petrobras e siderúrgicas correspondem a cerca de 40% do Ibovespa. As matérias-primas passaram a apresentar tendência de baixa quando surgiram evidências de que a crise saiu do mercado financeiro e atingiu a economia real. Cautela total agora. E analistas insistem: invista só em renda fixa.

 

O DÓLAR CONTINUARÁ SUBINDO?

“O mais provável é que o dólar se estabilize em R$ 2 até o final do ano. Um recuo para cerca de R$ 1,60 é praticamente inviável”, projeta Miriam Tavares, diretora de Câmbio da corretora AGK, de São Paulo. “A chance do ambiente financeiro internacional se estabilizar nos próximos meses é maior, mas ainda existe a desconfiança de que as coisas possam piorar. Se isso acontecer, o dólar pode bater em R$ 3 rapidamente”, avalia. Mas a rapidez e a disposição dos governos em estancar a crise vieram de forma providencial e o mais provável é que as medidas anunciadas consigam estabilizar o sistema financeiro mundial. “As ações do Banco Central, vendendo dólares no mercado e injetando recursos no sistema financeiro, devem ajudar a conter o avanço da moeda”, afirma Miriam.

 

QUEM TEM DÓLAR DEVE COMPRAR MAIS?

Andrés Kikuchi, analista da Link, de São Paulo, recomenda vendê-los e aplicar o capital, que já engordou bastante com a disparada da moeda no último mês, em renda fixa. O câmbio deve seguir bastante volátil. Nada, portanto, de adquirir mais divisa estrangeira. Só vale a pena comprar dólares se você tem dívidas nessa moeda ou pretende viajar para o exterior no curto prazo.

 

DEVO FAZER UM FINANCIAMENTO AGORA?

“Esta não é a hora de adquirir imóveis ou veículos com parcelas a perder de vista”, afirma Hessia Costilla, analista da Pro Teste. Os bancos estão mais precavidos e cobram taxas de juros mais altas. Os prazos de financiamento devem ficar mais curtos e as parcelas, mais altas. Para quem já está financiando um automóvel ou um imóvel, com contratos feitos com taxas de juros pré- fixadas, não há com o que se preocupar. Se o empréstimo tomado foi feito com taxas pós-fixadas, é preciso preparar o orçamento para suportar prestações mais altas. A saída aí é adiantar o maior valor que se puder pagar até a entrega do imóvel. Outra dica é usar toda a renda disponível para diminuir o saldo devedor, como por exemplo o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), férias e 13o salário. Para o consumidor que não tem como se livrar de um financiamento, aconselha-se pesquisar muito, porque a variação de juros é grande, e não deixar de exigir a informação sobre o CET (Custo Efetivo Total), que envolve tudo que faz parte do financiamento.

 

Lições do crash de 1929
A GRANDE DEPRESSÃO PROVOCOU DESEMPREGO COLOSSAL NOS ESTADOS UNIDOS E MUDOU O MERCADO

O clichê “a História é o estudo do passado para entender o presente e planejar o futuro” nunca pareceu tão aplicável quanto agora. Mas a maioria dos analistas acredita que, comparado com o crash de 1929, dessa vez os estragos serão menores, mas fortes. É que os governos estão agindo rápido. A Grande Depressão, ou Crise de 1929, é considerada o pior e o mais longo período de recessão econômica do século 20. O desemprego atingiu um terço da população norte-americana. Embora a eclosão tenha ocorrido com a quebra da Bolsa de Nova Iorque, em 24 de outubro de 1929, o governo só foi tomar atitude em 1933. Nos anos 20, os Estados Unidos viviam uma euforia econômica em todos os setores de produção. Após a Primeira Guerra Mundial (1918), era o país mais rico do planeta. As indústrias produziam em demasia, mas a renda dos trabalhadores não era suficiente para consumir tudo. Ao mesmo tempo, a Bolsa norte-americana refletia o aquecimento ilusório da economia. Quando empresas não conseguiram dar vazão a seus produtos, a festa acabou. Num mundo que havia sido arrasado pela guerra, a contaminação para outros países foi inevitável. Sob o comando do presidente Franklin Delano Roosevelt, foi elaborado um plano de salvação para os Estados Unidos, o New Deal. Estabelecia o controle na emissão de valores monetários, o investimento em setores básicos da indústria e a criação de emprego. Também contemplava a formação de órgãos reguladores do mercado. Como predominavam a economia clássica da livre iniciativa, o projeto foi impactante: aumentou a intervenção do Estado. Com o passar dos anos, os governos voltaram a abrir os mercados, até que mais uma vez o sistema financeiro sofreu duras conseqüências. A saída é estatal outra vez.

A MAIORIA DOS ESPECIALISTAS AFIRMA QUE A ACELERAÇÃO DA ECONOMIA AMERICANA DEVE FICAR NA FAIXA DE 1% EM 2008. E CAIRÁ NO ANO QUE VEM PARA 0,2%. RECUPERAÇÃO SÓ EM 2011. SÃO ANÁLISES, DIGAMOS, MAIS OTIMISTAS.

A RECEITA DA EXPORTAÇÃO DE COMMODITIES CORRESPONDE A CERCA DE 65% DO TOTAL, GRANDE FATIA DO COMÉRCIO EXTERIOR BRASILEIRO. CASO O CONSUMO MUNDIAL DIMINUA, A BOLSA, ASSIM COMO O PAÍS, SERÁ AFETADA. POR ISSO A CAUTELA DEVE SER MANTIDA

 

Essa crise pode decretar o fim da hegemonia norte-americana?

“Certamente, a hegemonia norte-americana está ameaçada. A história demonstra que toda superpotência acaba por naufragar em meio ao maremoto. Já vimos isso com Inglaterra, Holanda e até Portugal, que lideraram a economia. Todos acabaram sucumbindo. Mas a derrocada norte-americana não será vista tão cedo. Esse processo, que pode muito bem começar agora, será longo, de uns 15 ou 20 anos. Se os Estados Unidos não se ajustarem rapidamente, não terão condições de competir com a mão-de-obra barata de países como Brasil, China e Índia. Quem deverá assumir a liderança da economia mundial? Difícil prever, mas devemos olhar atentamente para a China.”
Evaldo Alves, professor de economia internacional da FGV (Fundação Getúlio Vargas)

“A hegemonia norte-americana está com seus dias contados. Pode vir rápido, não deve levar muitos anos, não. A ascensão da China e o ressurgimento da Europa irão, ao lado de um poder menos dominante dos Estados Unidos, formar uma nova ordem mundial, com uma economia multipolar. Se os países emergentes não fossem centros robustos de crescimento, a crise financeira teria levado o planeta a uma situação muito pior. Talvez uma nova ordem mundial vá surgir, não uma ditada desde Washington, mas de Pequim.”
Parag Khanna, economista indiano, é pesquisador sênior do instituto New America Foundation. É autor do livro Segundo mundo: impérios e influência na nova ordem global, que será lançado no Brasil no final de novembro pela editora Intrínseca


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